A confiabilidade dos processos industriais depende, entre outros fatores, da exatidão dos instrumentos utilizados na medição de variáveis como pressão, temperatura, vazão, umidade e grandezas elétricas. Para assegurar essa exatidão, é necessário que esses instrumentos passem por calibrações periódicas. O principal documento que comprova a rastreabilidade e validade metrológica de uma calibração é o certificado de calibração.
Neste artigo técnico abordamos o que são os certificados de calibração, quais informações devem conter, como fazer uma análise crítica adequada e por que essa etapa é fundamental para garantir a confiabilidade metrológica e atender aos requisitos de normas como a ISO/IEC 17025.
O que são certificados de calibração?
Um certificado de calibração é um documento técnico que apresenta os resultados obtidos durante a calibração de um instrumento, além das condições, métodos e padrões utilizados.
Ele é emitido por um laboratório de calibração, preferencialmente acreditado pelo CGCRE (Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro), e serve como comprovação de que o instrumento foi avaliado sob condições controladas e com rastreabilidade metrológica.
De acordo com a norma ABNT NBR ISO/IEC 17025, o certificado deve conter informações que permitam ao usuário julgar a conformidade metrológica do instrumento com base nos resultados obtidos e nos critérios estabelecidos pela empresa.
Glossário dos principais termos técnicos utilizados
Antes de aprofundar a leitura sobre a estrutura de um certificado de calibração, é essencial compreender alguns termos técnicos que aparecem frequentemente nesse tipo de documento.
Esses conceitos são fundamentais para interpretar corretamente os dados fornecidos e realizar uma análise crítica eficaz.
Erro (ou desvio): diferença entre o valor indicado pelo instrumento e o valor padrão conhecido.
Incerteza de medição: parâmetro que expressa a dispersão dos valores que poderiam ser atribuídos à medição; indica o grau de confiança do resultado de uma medição.
Tolerância: limite máximo de desvio aceitável definido pelo processo ou fabricante de um instrumento de medição.
Rastreabilidade: capacidade de relacionar os resultados da calibração a padrões internacionais por meio de uma cadeia contínua de comparações.
Ajuste: intervenção técnica para corrigir ou compensar desvios em um instrumento de medição.
Calibração: procedimento metrológico que determina os desvios de um instrumento em relação a um padrão, sem realizar ajustes.
O domínio desses conceitos é fundamental para a correta leitura e análise crítica de certificados.
Estrutura básica de um certificado de calibração
Embora o layout possa variar de um laboratório para outro, todo certificado de calibração tecnicamente válido deve conter, no mínimo, as seguintes informações:
1. Identificação do laboratório emissor
- Nome, endereço e logotipo do laboratório
- Número de acreditação (quando aplicável)
2. Identificação do instrumento calibrado
- Modelo, fabricante, número de série
- Código interno ou patrimonial do cliente
3. Identificação do cliente
- Razão social, endereço e CNPJ
- Responsável técnico
4. Data e local da calibração
- Data da realização da calibração/ensaio e a emissão do certificado
- Condições ambientais durante a calibração (temperatura, umidade)
5. Procedimentos e equipamentos utilizados
- Referência ao método adotado para realização da calibração
- Equipamentos e padrões utilizados, com respectivos números de série e validade da calibração
6. Resultados da calibração
- Tabela com os valores de referência x valores indicados pelo instrumento
- Desvio observado
- Incerteza de medição
- Tolerâncias (quando definidas pelo cliente)
7. Declarações e observações
- Comentários técnicos relevantes sobre o desempenho do instrumento
- Declaração de rastreabilidade ao Sistema Internacional de Unidades (SI)
- Assinatura do responsável técnico pelo ensaio
Importância da análise crítica de certificados de calibração
Receber um certificado de calibração não deve ser o ponto final de um processo.
A análise crítica é uma etapa essencial para validar a confiabilidade do documento e assegurar que os dados apresentados estejam dentro dos critérios técnicos e normativos da organização.
Sem essa análise, corre-se o risco de aceitar instrumentos fora de tolerância, com desvios não identificados ou com certificados incompletos, comprometendo a rastreabilidade metrológica de todo o processo.
Como fazer a análise crítica de certificados de calibração
A análise crítica de um certificado deve ser feita de forma técnica, criteriosa e documentada.
A seguir, apresentamos os principais pontos a verificar:
Verificar se o certificado está dentro do prazo de validade
Avalie a data da calibração e a política de periodicidade da empresa. Certificados vencidos devem ser substituídos por novos certificados obtidos através de novas calibrações, ou o instrumento deve ser retirado de uso.
Confirmar a rastreabilidade metrológica
Verifique se o laboratório é acreditado pela Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro (Cgcre) sob a norma ISO/IEC 17025 e se menciona rastreabilidade ao Sistema Internacional de Unidades (SI). Certifique-se de que os padrões utilizados são listados.
Avaliar a incerteza de medição
Verifique se a incerteza de medição obtida é compatível com a aplicação. Em processos críticos, incertezas elevadas podem comprometer o resultado. É importante lembrar que a incerteza de medição leva em conta o padrão utilizado na calibração, que deve possuir exatidão compatível com o equipamento calibrado e com os requisitos de incerteza de medição do processo.
Analisar os desvios encontrados
Compare os valores indicados com os valores do padrão e identifique se os desvios ultrapassam a tolerância especificada para o processo.
Verificar se os métodos utilizados são adequados
Valide se o procedimento está em conformidade com normas técnicas aplicáveis. Observe se foram utilizados padrões compatíveis com o instrumento em questão.
Verificar se o instrumento foi aprovado ou reprovado
Os resultados obtidos devem ser analisados de acordo com o critério de aceitação (tolerância) aplicados ao processo, alguns certificados apresentam campo com essa indicação. Se o instrumento for reprovado, deve ser retirado de uso ou ajustado.
Erros comuns na interpretação de certificados de calibração
Cometer erros ao interpretar certificados de calibração compromete toda e qualquer decisão a ser tomada relacionada ao uso dos instrumentos. Um dos equívocos mais frequentes é ignorar a incerteza de medição, utilizando apenas o desvio como critério de aprovação. Em muitos casos, a incerteza pode ser maior que a tolerância do processo, o que invalida o uso do instrumento mesmo com desvio aparentemente pequeno.
Outro erro comum é não verificar a validade do certificado ou dos padrões utilizados, resultando no uso de instrumentos com rastreabilidade comprometida.
Também é recorrente considerar o certificado como um “atestado de conformidade”, quando, na verdade, ele apenas informa os resultados da calibração, cabendo à empresa estabelecer os critérios de aceitação.
Por fim, há casos em que o profissional desconsidera observações importantes descritas pelo laboratório, como instabilidade durante o ensaio ou limitações na faixa calibrada.
A atenção a esses detalhes pode evitar o uso inadequado do instrumento e possíveis falhas no processo industrial.
Diferença entre certificado de calibração acreditado e rastreável
No Brasil, a calibração pode ser realizada por laboratórios acreditados pelo CGCRE (Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro) ou por laboratórios não acreditados, desde que mantenham a rastreabilidade metrológica.
Certificado Acreditado
- Emitido por laboratório acreditado pelo Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro (Cgcre)
- Possui “Etiqueta” do laboratório e número de acreditação válido
- Reconhecido internacionalmente em acordos de mútuo reconhecimento
Para encontrar um laboratório acreditado pelo CGCRE (Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro), acesse: RBC – Lista de Laboratórios
Certificado rastreável
- Emitido por laboratório não acreditado
- Deve garantir rastreabilidade por meio de padrões calibrados
- É aceito em auditorias desde que a rastreabilidade esteja comprovada e documentada
A escolha entre os dois tipos depende do nível de exigência da aplicação e das normas internas da empresa, porém na maioria dos casos o certificado Acreditado é preferível.
Papel do responsável técnico na análise dos certificados
Cabe ao responsável técnico, normalmente um profissional da metrologia, instrumentação, qualidade ou engenharia, avaliar e validar os certificados recebidos.
Esse profissional deve possuir conhecimento técnico para interpretar os dados, entender os métodos e tomar decisões quanto à conformidade ou não dos instrumentos calibrados.
A análise crítica pode ser realizada manualmente ou com o auxílio de planilhas e softwares de gestão metrológica, que automatizam parte da verificação e geram alertas para certificados vencidos, desvios fora do padrão ou ausência de informações obrigatórias.
Como documentar a análise crítica
Toda análise crítica deve ser registrada de forma rastreável. Isso inclui:
- Arquivamento do certificado em formato físico ou digital
- Registro da análise crítica (checklist ou formulário)
- Anexação aos sistemas de manutenção, qualidade ou ERP
- Comunicação ao setor responsável caso o instrumento apresente não conformidade
Essa documentação é frequentemente solicitada em auditorias de certificações como ISO 9001 ou ISO/IEC 17025.
Boas práticas e recomendações
Para garantir a eficácia da análise crítica de certificados de calibração, é fundamental adotar práticas consolidadas no ambiente técnico e regulatório.
Primeiramente, recomenda-se priorizar certificados emitidos por laboratórios acreditados pelo CGCRE (Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro), pois isso assegura rastreabilidade metrológica e conformidade com normas internacionais.
Além disso, é importante manter controles internos atualizados, como planilhas com os prazos de calibração de cada instrumento e registros de seus certificados.
Treinamentos regulares devem ser promovidos para os responsáveis técnicos, focando em leitura de certificados, interpretação de incertezas e verificação de rastreabilidade. Também é essencial estabelecer critérios claros de aceitação para os desvios observados durante a calibração e as respectivas incertezas associadas, especialmente em processos críticos.
A automação do controle por meio de softwares especializados é uma prática recomendada, pois permite emitir alertas automáticos para vencimentos, pendências e falhas na documentação.
Por fim, deve-se sempre exigir certificados completos, com todos os campos obrigatórios preenchidos de forma clara, garantindo total rastreabilidade e conformidade técnica.
A importância dos certificados de calibração na confiabilidade industrial
A análise crítica de certificados de calibração é um dos pilares da metrologia industrial.
Ela garante que os dados dos instrumentos utilizados nos processos sejam confiáveis, rastreáveis e tecnicamente válidos.
Ignorar essa etapa pode resultar em decisões equivocadas, retrabalho, perda de qualidade e não conformidade em auditorias.
Na Sensycal, valorizamos e praticamos a metrologia com responsabilidade técnica, garantindo instrumentos calibrados com rastreabilidade e suporte total ao cliente. Nosso laboratório é acreditado pela Coordenação Geral de Acreditação do Inmetro (Cgcre) e segue os procedimentos e boas-práticas de laboratórios de calibração.
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