Segurança Intrínseca (Ex i): o que é e por que ela é tão importante

Segurança Intrínseca (Ex i): o que é e por que ela é tão importante

Entenda o que é segurança intrínseca (Ex i), como ela funciona e por que é essencial para proteger equipamentos em atmosferas explosivas.
segurança intrínseca

Em ambientes industriais com atmosferas potencialmente explosivas, como indústrias químicas, petroquímicas, de petróleo e gás, a segurança operacional é crucial. Uma das principais estratégias para garantir essa segurança é a adoção de sistemas, equipamentos e práticas baseadas no conceito de Segurança Intrínseca.

Este blog post tem como objetivo apresentar de forma clara e didática os fundamentos da segurança intrínseca, suas normas de referência, os princípios de funcionamento, os dispositivos envolvidos, suas aplicações industriais e as boas práticas exigidas para a conformidade com os requisitos legais e técnicos.

O que é Segurança Intrínseca (Ex i)?

A Segurança Intrínseca (também conhecida pelo termo “Ex i”) é um conceito de proteção utilizado em equipamentos elétricos e eletrônicos destinados a operar em áreas classificadas, ou seja, ambientes onde existe risco de atmosfera explosiva devido à presença de gases inflamáveis, vapores, poeiras ou fibras combustíveis.

O princípio básico da segurança intrínseca consiste em tornar incapaz a ocorrência de ignição da atmosfera explosiva através de faíscas, mesmo em caso de falha do equipamento. Isso é obtido limitando-se a energia elétrica (tensão e corrente) e térmica (aquecimento) disponível nos circuitos a valores inferiores aos necessários para causar ignição. Assim, mesmo na presença de falhas, curtos-circuitos ou sobrecargas, o risco de explosão é mitigado.

Essa estratégia difere de outras formas de proteção (como pressurização ou encapsulamento) ao atuar na prevenção do surgimento da faísca e do calor capazes de iniciar uma explosão, em vez de apenas impedir que uma possível explosão afete o ambiente externo.

Normas de referência para segurança intrínseca

A Segurança Intrínseca é regulamentada por normas internacionais e nacionais que estabelecem requisitos para projeto, construção, instalação, inspeção e manutenção de equipamentos e sistemas.

As principais normas de referência são:

  • IEC 60079-11: Norma internacional que estabelece os requisitos e métodos de ensaio para equipamentos com proteção por segurança intrínseca.
  • ABNT NBR IEC 60079-11: Versão brasileira da IEC 60079-11.
  • IEC 60079-25: Norma internacional que trata do projeto, instalação e manutenção de sistemas e instalações intrinsecamente seguras.
  • ATEX (Diretivas 2014/34/EU e 1999/92/EC – Europa): Diretrizes europeias para equipamentos e ambientes com risco de explosão.
  • ANSI/ISA 60079-11: Padronização norte-americana equivalente à norma IEC.
  • Inmetro (Portaria 115): Regulamenta e certifica produtos Ex para uso no Brasil.

Veja também: O que são as diretivas ATEX e o sistema IECEx e qual é a sua importância para a segurança da indústria?

As certificações de conformidade são emitidas por organismos acreditados, como o Inmetro no Brasil, garantindo que os dispositivos estejam aptos para uso em áreas classificadas.

Principais pontos abordados pelas normas

  • Limites máximos de alimentação elétrica para circuito seguro.
  • Determinação de classe de temperatura dos equipamentos.
  • Métodos de ensaio para comprovação da segurança.
  • Requisitos de instalação e documentação técnica obrigatória.
  • Sistemas de certificação e manutenção da conformidade.

Por que a Segurança Intrínseca é importante na indústria?

A adoção da segurança intrínseca em ambientes industriais com risco de atmosfera explosiva oferece diversos benefícios estratégicos, técnicos e econômicos:

Proteção de vidas e patrimônio

Esta é a razão primordial. Em ambientes com risco de explosão, como refinarias de petróleo, indústrias químicas, fábricas de tintas, processamento de grãos e mineração, a segurança intrínseca é uma barreira final contra desastres. Ao eliminar a possibilidade de uma ignição, ela protege os operadores, o público e as instalações.

Manutenção e operação seguras

Um dos grandes diferenciais da segurança intrínseca é que ela permite que a manutenção de instrumentos e a troca de componentes sejam realizadas com o circuito energizado, sem a necessidade de paralisar a produção ou obter permissões especiais de trabalho a quente. Isso reduz significativamente o tempo de inatividade (downtime), economiza tempo e aumenta a produtividade.

Flexibilidade de instalação

Ao contrário de outros métodos de proteção que exigem invólucros pesados e à prova de explosão (Ex d), a segurança intrínseca permite o uso de invólucros leves e cabos padrão, desde que a barreira de segurança esteja instalada corretamente na área segura. Isso simplifica a instalação, reduz o custo e o peso dos equipamentos.

Integração com Sistemas de Controle

A maioria dos sistemas de controle, como CLP’s (Controladores Lógicos Programáveis) e DCS’s (Sistemas de Controle Distribuído), utiliza sinais de baixa tensão e corrente (por exemplo, 4-20 mA). Isso torna a segurança intrínseca uma solução natural e de fácil integração com a instrumentação de processo moderna.

Conformidade com normas e regulamentações

A utilização de equipamentos e circuitos intrinsecamente seguros é uma exigência legal em muitas jurisdições. O não cumprimento das normas de segurança em áreas classificadas pode resultar em multas pesadas, interdição das instalações e, em casos extremos, processos criminais.

Entendendo os ambientes Ex: Zonas de Risco de Explosão

Para aplicar a segurança intrínseca de forma correta, é crucial entender a classificação das áreas de risco de explosão. As normas internacionais, como a IEC 60079, dividem essas áreas em zonas, com base na frequência e na duração da presença da atmosfera explosiva.

Para Gases, Vapores e Névoas:

  • Zona 0: Área na qual uma atmosfera explosiva de gás, vapor ou névoa está presente continuamente ou por longos períodos, ou com frequência. É a área de maior risco.
  • Zona 1: Área na qual uma atmosfera explosiva de gás, vapor ou névoa é provável de ocorrer ocasionalmente em operação normal.
  • Zona 2: Área na qual uma atmosfera explosiva de gás, vapor ou névoa não é provável de ocorrer em operação normal e, se ocorrer, persistirá somente por um curto período.

Para Poeiras Combustíveis:

  • Zona 20: Área na qual uma atmosfera explosiva sob a forma de nuvem de poeira combustível está presente continuamente ou por longos períodos, ou com frequência.
  • Zona 21: Área na qual uma atmosfera explosiva sob a forma de nuvem de poeira combustível é provável de ocorrer ocasionalmente em operação normal.
  • Zona 22: Área na qual uma atmosfera explosiva sob a forma de nuvem de poeira combustível não é provável de ocorrer em operação normal e, se ocorrer, persistirá somente por um curto período.

A segurança intrínseca é o único método de proteção que pode ser utilizado em Zonas 0 e 20, as áreas de maior risco, devido à sua capacidade de limitar a energia de ignição em qualquer condição de falha.

Etapas do Processo de Segurança Intrínseca

Para garantir uma aplicação efetiva da segurança intrínseca, devem ser seguidas etapas específicas:

  1. Classificação de áreas: Mapeamento das zonas de risco baseado na frequência e duração da presença de atmosferas explosivas.
  2. Seleção de equipamentos e acessórios certificados Ex i: Todos os componentes do circuito, incluindo sensores, controladores, barreiras e cabos, devem ser compatíveis.
  3. Projeto de circuitos: Desenvolvimento de diagramas e cálculos para garantir que as energias elétricas estejam abaixo dos limites normatizados.
  4. Instalação adequada: Seguir as exigências das normas técnicas para montagem e documentação.
  5. Comissionamento: Testes de verificação da continuidade da segurança intrínseca.
  6. Manutenção e inspeção periódica: Avaliação contínua para garantir que os parâmetros originais sejam mantidos ao longo do tempo.

Principais componentes de sistemas intrinsecamente seguros

Entender os dispositivos e acessórios normalmente utilizados é fundamental:

Barreiras Zener

Limitam a tensão e corrente que podem chegar à área classificada, desviando eventuais sobrecargas para o aterramento.

Isoladores galvânicos

Oferecem proteção através do isolamento elétrico entre o lado seguro e a área classificada, facilitando conexões com outros sistemas.

Sensores e atuadores Ex i

Sensores de pressão, temperatura, proximidade, válvulas solenóides e outros dispositivos projetados especificamente para esta proteção.

Cabos e acessórios certificados

Utilização de cabos com isolamento e identificação adequados, além de prensa-cabos e caixas compatíveis.

Sinalização e marcação dos equipamentos com segurança intrínseca

A marcação de um equipamento certificado para áreas classificadas é como um “código de barras” que informa exatamente onde e como ele pode ser utilizado. Para um profissional júnior, aprender a decifrar essa marcação é uma habilidade fundamental.

Vamos usar um exemplo prático de uma marcação típica: Ex ia IIC T4 Ga

  • Ex: É o símbolo internacional de proteção contra explosão.
  • ia: Indica o Nível de Proteção do Equipamento (EPL – Equipment Protection Level).
    • ia: Nível de proteção “muito alto”, adequado para a Zona 0. Garante a segurança mesmo em duas falhas independentes.
    • ib: Nível de proteção “alto”, adequado para a Zona 1. Garante a segurança em uma única falha.
    • ic: Nível de proteção “normal”, adequado para a Zona 2. Garante a segurança em condições de operação normal.
  • IIC: Indica o Grupo de Gases. Este grupo classifica os gases, vapores ou névoas explosivas com base na energia mínima necessária para sua ignição.
    • IIA: Gás propano.
    • IIB: Gás etileno.
    • IIC: Gases como hidrogênio e acetileno, que são os mais perigosos, pois exigem a menor energia para ignição. Um equipamento certificado para IIC pode ser usado em ambientes IIB e IIA, mas não o contrário.
  • T4: Indica a Classe de Temperatura. É a temperatura máxima de superfície que o equipamento pode atingir, mesmo em condições de falha. T4, por exemplo, não pode ser usado em um ambiente onde o gás tem uma temperatura de ignição inferior a 135 °C. A classe T6 é a mais segura, pois garante que a temperatura máxima da superfície não excederá 85 °C.
    • T1: 450 °C
    • T2: 300 °C
    • T3: 200 °C
    • T4: 135 °C
    • T5: 100 °C
    • T6: 85 °C Um equipamento com classe de temperatura
  • Ga: Indica o Nível de Proteção da Área (EPL – Equipment Protection Level) em relação às zonas de risco.
    • Ga: Adequado para Zona 0 (muito alto).
    • Gb: Adequado para Zona 1 (alto).
    • Gc: Adequado para Zona 2 (normal).

Diferença entre segurança intrínseca e outras técnicas de proteção

A segurança intrínseca é apenas uma das formas de proteção aplicadas em atmosferas explosivas. Outras técnicas incluem:

Invólucro à Prova de Explosão (Ex d): Este método opera no princípio de “conter a explosão”. O equipamento é selado em um invólucro robusto, capaz de resistir à pressão de uma explosão interna e resfriar os gases quentes antes que eles escapem, impedindo a ignição da atmosfera externa. É usado em motores e outros equipamentos de alta potência, mas a manutenção exige o desligamento do circuito.

Segurança Aumentada (Ex e): esta técnica evita a formação de faíscas e arcos, minimizando a possibilidade de ignição. É utilizada em caixas de junção, terminais e luminárias. A manutenção também exige o desligamento, e a vedação do invólucro deve ser impecável.

Encapsulamento (Ex m): o equipamento é completamente encapsulado em uma resina, impedindo o contato de qualquer componente elétrico com a atmosfera explosiva.

Preenchimento com areia (Ex q): o equipamento é totalmente imerso em um material granular (areia), que absorve o calor e impede a propagação de uma possível ignição.

A escolha do método de proteção depende da zona de risco, do tipo de equipamento e da energia requerida para a operação. A segurança intrínseca é, muitas vezes, a escolha ideal para a instrumentação de campo de baixa potência.

Vantagens e desvantagens da segurança intrínseca (Ex i)

Como toda solução de engenharia, a segurança intrínseca possui seus pontos fortes e fracos, que devem ser considerados na escolha da proteção adequada.

Vantagens

Segurança superior

É a única técnica que pode ser utilizada na Zona 0, a área de maior risco, garantindo a segurança mesmo em múltiplas falhas.

Custo de instalação reduzido

Não exige conduítes pesados, prensa-cabos à prova de explosão ou caixas de passagem especiais. A fiação pode ser feita com cabos de instrumentação padrão, desde que se respeite a segregação de cabos.

Peso e tamanho

Os equipamentos intrinsecamente seguros são, por natureza, menores e mais leves, o que facilita sua instalação em painéis e em campo.

Desvantagens

Limitação de energia

Este é o principal “trade-off”. A segurança intrínseca é inviável para equipamentos que consomem muita energia, como motores, resistências de aquecimento ou grandes iluminadores.

Custo dos componentes associados

Barreiras de segurança e isoladores galvânicos podem ter um custo mais elevado que outros componentes, mas o investimento é compensado pela segurança e facilidade de manutenção.

Onde os dispositivos Ex i são utilizados?

Sensores de temperatura, transmissores de pressão, detectores de gás, chaves de fim de curso, interfaces HART, conversores de sinal e barreiras galvânicas são exemplos comuns de dispositivos com proteção Ex i.

Esses dispositivos são utilizados em:

  • Linhas de produção com solventes
  • Reatores de indústrias químicas
  • Tanques de combustível
  • Plataformas de extração de petróleo
  • Laboratórios farmacêuticos e de biotecnologia
  • Sistemas de instrumentação em atmosferas com risco de explosão

Certificação de equipamentos e documentação

Para que um equipamento seja considerado Ex i, ele precisa passar por um processo de certificação rigoroso, que envolve:

  • Análise de projeto e componentes
  • Ensaios de laboratório conforme normas IEC
  • Emissão de certificado por organismo acreditado
  • Manutenção de lotes e auditorias periódicas

A documentação deve incluir:

  • Certificado de conformidade
  • Manual técnico com instruções de instalação e manutenção
  • Desenhos de interligação dos circuitos
  • Avaliação de riscos e zonas classificadas

Produtos Sensycal com certificação de segurança intrínseca (Ex i)

A Sensycal oferece uma linha completa de instrumentos certificados para uso em áreas classificadas, com proteção do tipo Segurança Intrínseca (Ex i).

Esses equipamentos foram projetados para garantir medições precisas e confiáveis mesmo em ambientes com atmosferas potencialmente explosivas, como indústrias químicas, plataformas offshore, refinarias e plantas farmacêuticas.

DPI620 Genii IS (DPI620G-IS)

Calibrador modular multifuncional com interface gráfica touchscreen e capacidade de executar testes e calibrações de grandezas elétricas, de pressão e temperatura. Totalmente compatível com áreas classificadas.

Multicalibrador de Pressão Intrinsecamente Seguro DPI 620 Genii-IS

Saiba mais: Multicalibrador DPI 620 Genii IS.

DPI610E-IS

Calibrador de pressão intrinsecamente seguro, com bomba de geração de pressão integrada. Recomendados para manutenção de instrumentos de pressão em campo, mesmo em áreas perigosas.

calibrador de pressão portátil DPI610E

DPI705E-IS

Indicador de pressão de exatidão intrinsecamente seguro, com entrada para módulos de pressão remotos ou sensores de temperatura Pt100.

Saiba mais: Indicadores de pressão DPI705E.

DPI 104-IS

Manômetro digital compacto com alta exatidão, visor de fácil leitura e certificação Ex i. Ideal para inspeções de rotina, com registro de dados e máxima segurança.

Manômetro Digital Intrinsecamente Seguro DPI 104-IS
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